terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Capítulo 1


No ideograma chinês:

Crise é igual a oportunidade.



Meu próximo cachorro vai se chamar Dick, de Dick Farney, o ídolo do rádio nas
décadas de 40 e 50, época em que só se ouvia música americana e muita gente teve
cachorro com esse nome. Vai ser meu companheiro e não a minha caçulinha (como a
Lindona), vaticinou Haroldo, depois de algumas cervejas, antes de tomar o caminho
do bar, sonhando com seu companheiro de terceira idade. Lindona havia morrido,
de repente, há poucos anos, ela era uma cadelinha tenerife, que nos deu alegria por
dez anos.
Criada no apartamento da Lagoa, Lindona chegou quando Haroldo tinha quarenta e
oito anos, eu trinta e cinco e nossa filha, Olívia, treze.
Isso ocorreu à época de minha separação, o que foi mais uma evolução de
relacionamento. Eu e Haroldo passamos a dividir o mesmo apartamento, com vidas
separadas e viramos irmãos por escolha, já que convivemos um com o outro mais
tempo do que com nossos irmãos originais.
Lindona era o esteio da família, unia todos nós e queria-nos em casa sempre juntos
e, se por acaso todos saíssem e ela ficasse sozinha, ela fazia xixi no meio da sala e
latia para a porta o tempo todo. Tinhamos que chamar um dog siter para ficar com
ela e, quase sempre, era um amigo da Olívia que fazia este papel, por acaso, seu
apelido era Dog. Ela era o nosso bebê e se comportava como uma pessoa responsável
e cheia de manias. Quando Haroldo teve um AVC transitório e ficou com um lado
paralisado por uma hora e meia, ela foi me avisar. Quando queríamos chamar
alguém em outro aposento era só pedir que ela ia até lá , e só aparecia de volta com a
pessoa. Estava acostumada a ouvir e a entender tudo o que se falava. Haroldo,
pasmo com ela pequena, a chamava de Einstein. Dá certo conversar com os cães, eles
entendem tudo. Isso, eu já tinha testado com minha cadela de adolescente, chamada
Preta, que ficou tão inteligente que gostava de sair na rua sozinha e ir até o jornaleiro
comprar jornal. Adorava, ainda, andar de elevador, já que, morando no segundo
andar do prédio, pegava carona e saltava em qualquer andar só pelo prazer de
passear no elevador, escutando conversas e decidindo onde ir a partir do papo.
Lindona mal saia de casa, era bonita demais, tinha trinta e cinco centímetros de
altura, batonzão , lápis preto nos olhos, pelo parecendo paina branca e barriga rosa.
Era tão bonita que dava medo de algum sequestro, como aconteceu com uma amiga
que tinha um Boxer albino e fora perseguida na rua. Também na casa de Petrópolis
nos anos oitenta, um Old Sheep Dog foi sequestrado na calada da noite. Com este
acervo de informações, o medo de roubarem a Lindona viveu sempre conosco e ela
viveu praticamente presa no apartamento (grande) na Lagoa. Saindo pouco, ela tinha
um ídolo, o Encrenca, que ela olhava da janela e sabia que ele era um cachorrinho,
coisa que a respeito dela , ela não sabia. Era tão humana, que sua reação ao ver uma
barata era imitar Olívia, subindo na cama e gritando, como sua irmã de verdade,
tendo até uma cama igual no quarto de solteiro da Olívia.
Para caçar barata, era igual a gato, batendo com as patinhas e isso, porque eu ensinei.
Encrenca morava em frente , e ela, da janela, o vigiava já que ele costumava sair à
toda hora. Ele era um Poodle branco que ela resolveu namorar, mas como ele era
muito novo não deu.
Arrumei um namorado igual a ela na internet, mas ela o esnobou, e, quando fui a um
canil com ela , ela se apavorou.
Foi ainda, visitar um Bichon Frisé com pinta de francês, cuja casa ela bagunçou toda.
Não teve jeito, era seu último cio para ter filhos e ela não quis outro senão o
Encrenca. Como não deu, não cruzou com mais ninguém, e o perseguiu, mordendo,
pelo resto da vida. "Boiola", ela devia pensar, e partia para um ataque ao coitado.
Sua morte deixou um vazio e um medo de se apegar a qualquer coisa, uma urgência
de vida nova, vida de solteiro, uma mudança, era hora de mudar, viajar, dar uma
guinada na vida para qualquer lado, mudança radical para sairmos do marasmo que
nos encontrávamos. Seus brinquedos espalhados e as fotos em murais nos
lembravam, com dor , essa perda e imediatamente o medo do apego aparecia.
Lembranças alegres nos faziam chorar à toa. Quando Haroldo falava do seu próximo
cachorro, Olívia dizia que não queria ver, não queria se apegar e sofrer, iria morar
sozinha e teria um gato. E eu, só pensava em cuidar de mim e somente de mim,
voltando a trabalhar depois de muito tempo de doenças em série, uma longa
hibernação.
Olívia, já com quase vinte e sete anos resolveu viajar indo para a Europa de mochilão.
Foi.
Quando voltasse iria mudar e morar sozinha, já era hora. Havia trancado a faculdade
de jornalismo esportivo e não queria estudar, queria trabalhar em alguma ONG com
crianças, algo ligado a esportes, se inscreveu no Pan Americano e torcia para ser
convocada para qualquer coisa, pois queria experiência em algum trabalho
voluntário. Filha única, nunca trabalhou na vida. Mimada, só perdia para a Lindona
que era a mais mimada.







Lindona

Um comentário:

Anônimo disse...

Ô Lindona... saudades!